segunda-feira, 27 de abril de 2020

Vencedor

Toma as espadas rútilas, guerreiro,

E a rutilância das espadas, toma

A adaga de aço, o gládio de aço, e doma

Meu coração – estranho carniceiro!


Não podes?! Chama então presto o primeiro

E o mais possante gladiador de Roma.

E qual mais pronto, e qual mais presto assoma

Nenhum pôde domar o prisioneiro.



Meu coração triunfava nas arenas.

Veio depois um domador de hienas

E outro mais, e, por fim, veio um atleta,



Vieram todos, por fim; ao todo, uns cem…

E não pôde domá-lo, enfim, ninguém,

Que ninguém doma um coração de poeta!


Augusto dos Anjos

Antes do nome

Não me importa a palavra, esta corriqueira.
Quero é o esplêndido caos de onde emerge a sintaxe,
os sítios escuros onde nasce o "de", o "aliás",
o "o", o "porém" e o "que", esta incompreensívelmuleta que me apóia.Quem entender a linguagem entende Deuscujo filho é Verbo. Morre quem entender.A palavra é disfarce de uma coisa mais grave, surda-muda,foi inventada para ser calada.Em momentos de graça, infrequentíssimos,se poderá apanhá-la: um peixe vivo com a mão.Puro susto e terror.

Adélia Prado