Sim, o amor acaba, é do jogo, mas muita gente se avexa, numa azáfama
dos diabos, querendo se jogar do abismo ainda a léguas do despenhadeiro.
O amor acaba, mas tem sempre um “chorinho”, como do generoso garçom no nosso uísque.
O mundo anda muito impaciente com as complicações amorosas, como se
fosse fácil juntar duas criaturas sob as mesmas telhas da rotina.
É preciso estar preparado(a) para as goteiras, para a hora em que o
amor vaza ou pinga no chão da casa e não há balde ou rodo que dê jeito.
No que vos conto, sob a desculpa do encorajamento coletivo, afinal de
contas animar a vida besta também é papel de um cronista-fabulista:
E quando imaginávamos que estava tudo acabado, que amor não mais
havia, que tinha ido tudo para as cucuias, que o fogo estava morto, que o
amor era apenas uma assombração do Recife Antigo…
Quando já dizíamos, a uma só voz, a crônica de Paulo Mendes Campos que repito ao infinitum:
“Às vezes o amor acaba como se fora melhor nunca ter existido; mas
pode acabar com doçura e esperança; uma palavra, muda ou articulada, e
acaba o amor; na verdade; o álcool; de manhã, de tarde, de noite; na
floração excessiva da primavera; no abuso do verão; na dissonância do
outono; no conforto do inverno; em todos os lugares o amor acaba; a
qualquer hora o amor acaba; por qualquer motivo o amor acaba…”
Quando já separávamos, olhos marejados, os livros e os discos…
Quando mirávamos, no mesmo instante, a nossa foto feliz no porta-retratos…
Quando não tínhamos nem mais ânimo para as clássicas D.R´s –as mitológicas discussões de relação…
Ave, palavra, até o gato, nervoso, sem saber com quem ficaria,
quebrava coisas dentro de casa àquela altura; o papagaio blasfemava,
diabo verde!
Estava na cara, naquela fantástica zoologia amorosa: aqueles pombinhos já eram.
O cheiro do fim tomara todos os cômodos, a rua, o quarteirão, o bairro, a cidade, o mundo…
Quando só restava cantar uma música de fossa… “Aquela aliança você pode empenhar ou derreter…”
Quando só restava a impressão de que eu já vou tarde…
Quando só restava Leonardo Cohen (foto) no iphone da moça moderna…
Quando eu não era mais o cara, embora insistisse em cantar o “I´m your man” deste mesmo trovador canadense…
Sim, o quadro era triste, não se tratava de hipérbole ou demão de tintas gregas.
De tanta inércia, faltava até força para que houvesse a separação
física, faltava força para arrumar as malas, pegar as escovas, contar
aos chegados comuns, tomar um porre.
Ah, amigo, quer saber quem bateu o ponto final da história?
Ela, claro, você acha que homem tem coragem para acabar qualquer
coisa? Mulher é ponto final; homem ponto e vírgula, reticências,
atalhos, barrigas de palavras, verbos e orações.
O estranho é que ela não disse, em nenhum momento, que não gostava mais do pobre mancebo.
Aquilo encucava. Porque um homem, disse o velho Antonio Maria,
padrinho sentimental deste cronista, nunca se conforma em separar-se sem
ouvir bem direitinho, no mínimo quinhentas vezes, que a mulher não
gosta mais dele, por que e por causa de quem etc etc, a longuíssima
milonga do adiós.
E nesse clima de fim sem fim as folhinhas outonais do calendário foram despencando sobre a relva fresca do desgosto.
Eu acabara de levantar do amigo sofá, que havia se transformado no
meu leito, quando ela passou com uma cara de impaciência e desassossego.
Mais que isso: ela estava com vontade de matar gente!
Era a cara que fazia quando estava faminta. Sabe mulher que fica
louca quando a fome aperta e a angústia da existência vocifera pelos
barulhos do estômago?
Vi aquela cena e caí na gargalhada. A princípio ela estranhou… Mas
sacou tudo e danou-se a morrer de rir igualmente. Nos abraçamos e rimos e
rimos e rimos e rimos daquilo tudo, rimos da nossa fraqueza em não dar
uns nós nos clichês, inclusive o da volta por cima, rimos do nosso
silêncio sem sentido, rimos desses casais que se separam logo na
primeira crise, rimos da falta de forças para enfrentar os maus bocados,
rimos, rimos, rimos.
Rimos da preguiça sentimental da humanidade e nos esbagaçamos de amor no chão da sala mesmo.
E um casal que ainda ri junto tem muita lenha verde para gastar na
vida e fazer cuscuz com carneiro e outros banquetes nada platônicos
movidos a bagaceiras, alentejanos sagrados e salineiras aguardentes.
Agora ela está deitada, linda, cheirosa, gostosa, psiu!, silêncio, ela dorme enquanto escrevo essa crônica!
Por XICO SÁ
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