domingo, 12 de junho de 2011

Consolação

[...] Que grande desgraça, se vai perder Veneza, disse ele, e estas palavras angustiadas impressionaram mais Joaquim Sassa do que a agitação das águas canais, as tumultuosas correntes, o avanço da maré nos baixos dos palácios, os cais inundados, a impressão irremediável de uma cidade inteira a afundar-se, incomparável Atlântida, catedral submersa, os mori, olhos cegos da água, batendo no sino com os martelos de bronze, enquanto as algas e os caramujos não paralisam as engrenagens, líquidos ecos, o Cristo Pantocrator da basílica finalmente em teológica conversação com os deuses marinhos subalternos de Jove, o Nepturno romano, o Posídon grego, e, de propósito regressadas às águas de que nasceram, Vénus e Anfitrite, só para o deus dos cristãos não há mulher. Quem sabe se a culpa não é minha, murmurou Joaquim Sassa, Não te ponhas em conta tão alta, ao onto de te considerares culpado de tudo, Refiro-me a Veneza, a perder-se Veneza, De perder-se Veneza será geral a culpa, e antiga, por desleixo e ganância já se perdia, Não falo dessas causas, por elas se perde o mundo todo, falo sim do que eu fiz, atirei uma pedra ao mar e há quem acredite que foi razão de arrancar-se a península à Europa, Se um dia tiveres um filho, ele morrerá por que tu nasceste, desse crime ninguém te absolverá, as mãos que fazem e tecem são as mesmas que desfazem e destecem, o certo gera o errado, o errado produz o certo, Fraca consolação para um aflito, Não há consolação, amigo triste, o homem é um animal inconsolável. [...]

Trecho do livro Jangada de Pedra - José Saramago

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