quinta-feira, 31 de março de 2011

Em minha porta...

Eu a vi, seminua, a esbanjar tuas pernas e teu riso aos pagos viajantes. Encurralada por famintos, confortando-se apenas com a recompensa por algum gozo ou qualquer outra forma de prazer. Em qualquer beco, qualquer banco, e dependendo do dia, a qualquer preço. [...]
Sei, moça, que em poucas horas a noite será uma lembrança vaga, pois que nenhum destes deixa rastro em seus sentimentos, apenas um pouco de tédio na memória corporal e, principalmente, um pouco de dinheiro...
e o que há de se fazer, moça?...

Giulliany Feitosa

Melancolia iminente

"[...]Ia para o quintal, às quatro e dez, quando ouviu os instrumentos longíquos, as batidas do bumbo e a alegria das crianças, e pela primeira vez desde a juventude pisou conscientemente numa armadilha da saudade e reviveu a prodigiosa tarde de ciganos em que o seu pai o levou para conhecer o gelo. Santa Sofia de la Piedad abandonou o que estava fazendo na cozinha e correu para a porta.
_É o circo! - gritou
Em vez de se dirigir ao castanheiro, o Coronel Aureliano Buendía foi também para a porta da rua e se misturou com os curiosos de contemplavam o desfile. Viu uma mulher vestida de ouro no cangote de um elefante. Viu um dromedário triste. Viu um urso vestido de holandesa que marcava o compasso da música com uma concha e uma caçarola. Viu os palhaços virando cambalhota no final do desfile e viu outra vez a cara de sua solidão miserável quando tudo acabou de passar e não ficou senão o luminoso espaço na rua, o ar cheio de tanajuras e uns quantos curiosos próximos ao precipício da incerteza.[...]"

Cem anos de Solidão - Gabriel García Márquez

sexta-feira, 11 de março de 2011

Autonomia

É impossível nesta primavera, eu sei
Impossível, pois longe estarei
Mas pensando em nosso amor, amor sincero
Ai! se eu tivesse autonomia
Se eu pudesse gritaria
Não vou, não quero
Escravizaram assim um pobre coração
É necessário a nova abolição
Pra trazer de volta a minha liberdade
Se eu pudesse gritaria, amor
Se eu pudesse brigaria, amor
Não vou, não quero.

Cartola - (escrito quando o autor percebeu a proximidade de sua morte)

domingo, 6 de março de 2011

Isabel - Ruben Blades

Parpadean los cielos confundiendo sombras
y el agua comienza a caer; un presentimiento
aún sin nombre envuelve a Isabel.
Libera un pasado cargado en recuerdos más
dulces que su realidad; cada vez que el cielo
se quiebra los siente llegar.
Todo es posible y nada se pierde en Macondo.
Hasta sus fantasmas rehúsan ir a otro lugar.
Isabel siente la lluvia en Macondo darle olor a su
soledad y explicación a su ansiedad, borrando el pecado.
Llueve en Macondo; relámpago, limpia un dolor
ancestral. Sonríe a tu entraña pues todo es posible
cuando uno revive el ayer; el tiempo no existe, ni el
miedo a lo que hubo una vez.
A hierba mojada, a tierra encantada, hoy huele a
nostalgia el jardín. Cien años resbalan, misterios que
no tienen fin.

Cae agua de luna en Macondo,
limpia un pecado inmortal.

terça-feira, 1 de março de 2011

Aprendizado

Do mesmo modo que te abriste à alegria
abre-te agora ao sofrimento
que é fruto dela
e seu avesso ardente.

Do mesmo modo
que da alegria foste
ao fundo
e te perdeste nela
e te achaste
nessa perda
deixa que a dor se exerça agora
sem mentiras
nem desculpas
e em tua carne vaporize
toda ilusão

que a vida só consome
o que a alimenta.


Ferreira Gullar

Os mortos

os mortos vêem o mundo
pelos olhos dos vivos

eventualmente ouvem,
com nossos ouvidos,
certas sinfonias
algum bater de portas,
ventanias

Ausentes
de corpo e alma
misturam o seu ao nosso riso
se de fato
quando vivos
acharam a mesma graça


Ferreira Gullar