domingo, 17 de julho de 2011

DESENCONTRÁRIOS

Mandei a palavra rimar,
ela não me obedeceu.
Falou em mar, em céu, em rosa,
em grego, em silêncio, em prosa.
Parecia fora de si,
a sílaba silenciosa.
Mandei a frase sonhar,
e ela se foi num labirinto.
Fazer poesia, eu sinto, apenas isso.
Dar ordens a um exército,
para conquistar um império extinto.

Paulo Leminsky

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Toco tu boca

Toco tu boca, con un dedo todo el borde de tu boca, voy dibujándola como si saliera de mi mano, como si por primera vez tu boca se entreabriera, y me basta cerrar los ojos para deshacerlo todo y recomenzar, hago nacer cada vez la boca que deseo, la boca que mi mano elige y te dibuja en la cara, una boca elegida entre todas, con soberana libertad elegida por mí para dibujarla con mi mano en tu cara, y que por un azar que no busco comprender coincide exactamente con tu boca que sonríe por debajo de la que mi mano te dibuja.
Me miras, de cerca me miras, cada vez más de cerca y entonces jugamos al cíclope, nos miramos cada vez más cerca y los ojos se agrandan, se acercan entre sí, se superponen y los cíclopes se miran, respirando confundidos, las bocas se encuentran y luchan tibiamente, mordiéndose con los labios, apoyando apenas la lengua en los dientes, jugando en sus recintos, donde un aire pesado va y viene con un perfume viejo y un silencio. Entonces mis manos buscan hundirse en tu pelo, acariciar lentamente la profundidad de tu pelo mientras nos besamos como si tuviéramos la boca llena de flores o de peces, de movimientos vivos, de fragancia oscura. Y si nos mordemos el dolor es dulce, y si nos ahogamos en un breve y terrible absorber simultáneo del aliento, esa instantánea muerte es bella. Y hay una sola saliva y un solo sabor a fruta madura, y yo te siento temblar contra mí como una luna en el agua.

Julio Cortázar

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Não há vagas

O preço do feijão
não cabe no poema. O preço
do arroz
não cabe no poema.
Não cabem no poema o gás
a luz o telefone
a sonegação
do leite
da carne
do açúcar
do pão

O funcionário público
não cabe no poema
com seu salário de fome
sua vida fechada
em arquivos.
Como não cabe no poema
o operário
que esmerila seu dia de aço
e carvão
nas oficinas escuras

- porque o poema, senhores,
está fechado:
"não há vagas"

Só cabe no poema
o homem sem estômago
a mulher de nuvens
a fruta sem preço

O poema, senhores,
não fede
nem cheira


Ferreira Gullar

domingo, 12 de junho de 2011

Consolação

[...] Que grande desgraça, se vai perder Veneza, disse ele, e estas palavras angustiadas impressionaram mais Joaquim Sassa do que a agitação das águas canais, as tumultuosas correntes, o avanço da maré nos baixos dos palácios, os cais inundados, a impressão irremediável de uma cidade inteira a afundar-se, incomparável Atlântida, catedral submersa, os mori, olhos cegos da água, batendo no sino com os martelos de bronze, enquanto as algas e os caramujos não paralisam as engrenagens, líquidos ecos, o Cristo Pantocrator da basílica finalmente em teológica conversação com os deuses marinhos subalternos de Jove, o Nepturno romano, o Posídon grego, e, de propósito regressadas às águas de que nasceram, Vénus e Anfitrite, só para o deus dos cristãos não há mulher. Quem sabe se a culpa não é minha, murmurou Joaquim Sassa, Não te ponhas em conta tão alta, ao onto de te considerares culpado de tudo, Refiro-me a Veneza, a perder-se Veneza, De perder-se Veneza será geral a culpa, e antiga, por desleixo e ganância já se perdia, Não falo dessas causas, por elas se perde o mundo todo, falo sim do que eu fiz, atirei uma pedra ao mar e há quem acredite que foi razão de arrancar-se a península à Europa, Se um dia tiveres um filho, ele morrerá por que tu nasceste, desse crime ninguém te absolverá, as mãos que fazem e tecem são as mesmas que desfazem e destecem, o certo gera o errado, o errado produz o certo, Fraca consolação para um aflito, Não há consolação, amigo triste, o homem é um animal inconsolável. [...]

Trecho do livro Jangada de Pedra - José Saramago

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Nauseabundo - conto

Acordei suado. No sonho eu possuía aquela no meio da escola, no meio da aula, havia um colchão entre as carteiras e ninguém olhava quando meus olhos fitaram o corpo suado… e no êxtase quando devíamos gritar nada aconteceu, e levantei e olhei os olhos da professora lá na frente, eles eram verdes e eu não conhecia aquele rosto, e nem aquela escola, e quando pensei no que tinha feito, e vi o colchão úmido e minhas mãos tremulas ainda e olhei aqueles seios nús entre a sala, na loucura senti-me grávido de uma pedra e acordei suado…
Acendi a luz, as três da manha, aquele alívio enternecido de dúvida, aquela realidade fria proliferando no corpo, dizendo: foi irreal. Passei as mãos pelo meu corpo úmido e fui ao banheiro, o banheiro me refrescava a mente, sentar lá e me livrar da abstinência de vida que me incomodava, era como se volvesse da janela fechada um ar incomodo, mas fresco, como uma coceira bem coçada..
Ai, há trinta minutos tentando dormir novamente e nada… Aquele sonho voltando a mente, uma mente impreguinada de sexo com aquela mulher/menina que eu sequer sabia realmente quem era, que eu nunca tinha visto mas conhecia lá dentro de alguma forma, dentro dela, do calor… ah, a cama coçava, a cama esquentava, e eu não consigo dormir, quero gritar, ouvir o som alto de uma distorção picante, como uma guitarra grunhindo a música que me faz esquecer que estou vivo.
agora eu ligo a Tv e vejo qualquer pornografia, vejo qualquer escatológica coisa as três e tantas da manhã, nenhum livro vai me segurar, e não quero fazer nada, quero dormir mas não posso, então vejo pornografia nojenta, de trinta anos atrás, com outros cabelos, com outros seios que estão mortos ou secos hoje, só consigo pensar nisso, nos seios secos, nos vermes, consumindo a carne, nada mais povoa a minha cabeça e tenho que desligar a merda…
á se essa cama fosse sonífero, eu estaria agora entre as flores, madressilvas perfumadas…
Contentei-me no final das contas em comer e desenhar uma espada numa folha de caderno, e nada parecia-me mais normal naquele instante do que pensar em como eu acharia estranho ver alguém fazendo isso… mas o que fazer? tornei-me essa anomalia dentro de mim mesmo, e isso me leva a uma intensa conflitagem interna que realmente não gosto de encarar, sou um asco e não quero ver isso, quem é?
queria mesmo era morrer do meu próprio vômito, como se isso me trouxesse glória, morreria sonhando uma fluorescente viagem por entre o caos e morreria sem dor… Mas tenho medo disso, tenho medo de morrer e ficar perdido no sono eterno, talvez toda a eternidade naquela sala de aula, com aquele sexo, com aqueles alunos indiferentes escrevendo nos cadernos enquanto eu me esganiçava e extorquia prazer daquele tronco de carne libidinoso…
o que me faz ficar assim? Pergunto isso pra mim mesmo, acho que preciso de uma mulher, mas tenho nojo de comprá-las e tenho medo de enfrentá-las: como o sono se vinga do meu medo, também tenho medo de dormir. Tenho medo de me drogar pois tenho medo de mim e tenho medo de morrer pois não sei pra onde vou.
Quando estou na rua e vejo menininhas quero tê-las, mas só em sonho, queria sonhá-las num éden carnívoro! a magnitude disso é impensável, nesse mundo elas não seriam seres humanos de verdade, e isso convém imaginar, pra que não tenham asco de mim, penso que elas seriam apenas pedaçinhos de prazer eternamente jovens, sem mães nem avós, algo que seria totalmente desprazeroso… Tenho pouca liberdade dentro de mim, não consigo nem ao menos formular metade dessa glória.
Nessa casa bela, que seria minha terra prometida, a água seria vermelha, pois a transparência me faz ter desprezo, o vermelho é mais consistente e como sou vermelho por dentro, me banharia de cor rubra, faria todo o sentido, e também seria vermelho o céu, porque já que vivo nesta célula gigante, que ela seja um reflexo de mim.
Acorde, digo pra mim mesmo mas é difícil, porque não sei bem se estou dormindo agora, mesmo me estapeando só consigo sentir dor e não há nada de real em sentir dor, minha fortuna fantástica é ter o poder de me molhar, só me sinto bem quando me molho, soube disso quando em meio de uma brincadeira quando criança, daquelas de meninos, tive uma coceira inexplicável, veio de algum lugar perto do meu pênis e subiu por meu peito e logo estava nas têmporas, e corri, e me debati como se houvessem formigas dentro de mim, mas somente me senti livre quando toquei meu corpo no úmido, me deitei no chão do banheiro, meu corpo de criança coube bem deitado dentro do Box, e me lembro bem daquela água morna caindo forte no meu corpo branco e jovem, acho que este dia foi meu primeiro sexo, foi quando perdi minha virgindade, pois mulheres são apenas instrumentos para isso; senão eu não poderia comprar esse trunfo.
É difícil me pensar sendo mim mesmo, é difícil ser eu, pois eu sinto que vejo algo além, por mais que cego que seja, eu sinto esta libido interna, minhas viceras se possuem mutuamente, se contorcem de êxtase, e eu sofro com isso.
Sou sujo, sujo por dentro e por fora, e além dessas dimensões também, somente a chuva me transborda, ela enche todo o meu ruim, faz ele, que é mais leve que a água, subir e vazar do meu corpo, e quando chove, sou como uma tempestade, sou um raio e grito como o trovão, eu saio e grito na rua, e me sinto limpo, me sinto leve, me sinto capaz de viver, me sinto capaz de ter algo que senão essa lucidez uniforme e precária e me sinto como que levado pra um dimensão onde a vida não seja o pesar… Mas nem isso pode ser perfeito, se a chuva fosse vermelha, eu poderia morrer em paz.

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Ninguém a outro ama

Ninguém a outro ama, senão que ama
O que de si há nele, ou é suposto.
Nada te pese que não te amem. Sentem-te
Quem és, e és estrangeiro.
Cura de ser quem és, amam-te ou nunca.

Firme contigo, sofrerás avaro
De penas.

Fernando Pessoa

domingo, 8 de maio de 2011

Eduardo Galeano

O medo ameaça:
Se você ama, terá Aids.
Se fuma, terá câncer.
Se respira, terá contaminação.
Se bebe, terá acidentes.
Se come, terá colesterol.
Se fala, terá desemprego.
Se caminha, terá violência.
Se pensa, terá angústia.
Se duvida, terá loucura.
Se sente, terá solidão.

segunda-feira, 25 de abril de 2011

A ausente

Amiga, infinitamente amiga
Em algum lugar teu coração bate por mim
Em algum lugar teus olhos se fecham à idéia dos meus.
Em algum lugar tuas mãos se crispam, teus seios
Se enchem de leite, tu desfaleces e caminhas
Como que cega ao meu encontro...
Amiga, última doçura
A tranqüilidade suavizou a minha pele
E os meus cabelos. Só meu ventre
Te espera, cheio de raízes e de sombras.
Vem, amiga
Minha nudez é absoluta
Meus olhos são espelhos para o teu desejo
E meu peito é tábua de suplícios
Vem. Meus músculos estão doces para os teus dentes
E áspera é minha barba. Vem mergulhar em mim
Como no mar, vem nadar em mim como no mar
Vem te afogar em mim, amiga minha
Em mim como no mar...


Vinícius de Moraes

Soneto da separação

De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.
De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama.

De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente.

Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.


Vinícius de Moraes

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Como explicar...

Como explicar que o homem, um animal tão predominantemente construtivo, seja tão apaixonadamente propenso à destruição? Talvez porque seja uma criatura volúvel, de reputação duvidosa. Ou talvez por que seu único propósito na vida seja perseguir um objetico, algo que, afinal, ao ser atingido, não mais é vida, mas o princípio da morte.

Dostoiévski

quinta-feira, 31 de março de 2011

Em minha porta...

Eu a vi, seminua, a esbanjar tuas pernas e teu riso aos pagos viajantes. Encurralada por famintos, confortando-se apenas com a recompensa por algum gozo ou qualquer outra forma de prazer. Em qualquer beco, qualquer banco, e dependendo do dia, a qualquer preço. [...]
Sei, moça, que em poucas horas a noite será uma lembrança vaga, pois que nenhum destes deixa rastro em seus sentimentos, apenas um pouco de tédio na memória corporal e, principalmente, um pouco de dinheiro...
e o que há de se fazer, moça?...

Giulliany Feitosa

Melancolia iminente

"[...]Ia para o quintal, às quatro e dez, quando ouviu os instrumentos longíquos, as batidas do bumbo e a alegria das crianças, e pela primeira vez desde a juventude pisou conscientemente numa armadilha da saudade e reviveu a prodigiosa tarde de ciganos em que o seu pai o levou para conhecer o gelo. Santa Sofia de la Piedad abandonou o que estava fazendo na cozinha e correu para a porta.
_É o circo! - gritou
Em vez de se dirigir ao castanheiro, o Coronel Aureliano Buendía foi também para a porta da rua e se misturou com os curiosos de contemplavam o desfile. Viu uma mulher vestida de ouro no cangote de um elefante. Viu um dromedário triste. Viu um urso vestido de holandesa que marcava o compasso da música com uma concha e uma caçarola. Viu os palhaços virando cambalhota no final do desfile e viu outra vez a cara de sua solidão miserável quando tudo acabou de passar e não ficou senão o luminoso espaço na rua, o ar cheio de tanajuras e uns quantos curiosos próximos ao precipício da incerteza.[...]"

Cem anos de Solidão - Gabriel García Márquez

sexta-feira, 11 de março de 2011

Autonomia

É impossível nesta primavera, eu sei
Impossível, pois longe estarei
Mas pensando em nosso amor, amor sincero
Ai! se eu tivesse autonomia
Se eu pudesse gritaria
Não vou, não quero
Escravizaram assim um pobre coração
É necessário a nova abolição
Pra trazer de volta a minha liberdade
Se eu pudesse gritaria, amor
Se eu pudesse brigaria, amor
Não vou, não quero.

Cartola - (escrito quando o autor percebeu a proximidade de sua morte)

domingo, 6 de março de 2011

Isabel - Ruben Blades

Parpadean los cielos confundiendo sombras
y el agua comienza a caer; un presentimiento
aún sin nombre envuelve a Isabel.
Libera un pasado cargado en recuerdos más
dulces que su realidad; cada vez que el cielo
se quiebra los siente llegar.
Todo es posible y nada se pierde en Macondo.
Hasta sus fantasmas rehúsan ir a otro lugar.
Isabel siente la lluvia en Macondo darle olor a su
soledad y explicación a su ansiedad, borrando el pecado.
Llueve en Macondo; relámpago, limpia un dolor
ancestral. Sonríe a tu entraña pues todo es posible
cuando uno revive el ayer; el tiempo no existe, ni el
miedo a lo que hubo una vez.
A hierba mojada, a tierra encantada, hoy huele a
nostalgia el jardín. Cien años resbalan, misterios que
no tienen fin.

Cae agua de luna en Macondo,
limpia un pecado inmortal.

terça-feira, 1 de março de 2011

Aprendizado

Do mesmo modo que te abriste à alegria
abre-te agora ao sofrimento
que é fruto dela
e seu avesso ardente.

Do mesmo modo
que da alegria foste
ao fundo
e te perdeste nela
e te achaste
nessa perda
deixa que a dor se exerça agora
sem mentiras
nem desculpas
e em tua carne vaporize
toda ilusão

que a vida só consome
o que a alimenta.


Ferreira Gullar

Os mortos

os mortos vêem o mundo
pelos olhos dos vivos

eventualmente ouvem,
com nossos ouvidos,
certas sinfonias
algum bater de portas,
ventanias

Ausentes
de corpo e alma
misturam o seu ao nosso riso
se de fato
quando vivos
acharam a mesma graça


Ferreira Gullar

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Tabacaria

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?

Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Gênio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chava, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.

(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)

Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, em rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.

(Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)

Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente

Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.

Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.

Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o deconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,

Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.

Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.

Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.

Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.

(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu


Poesias de Álvaro de Campos

domingo, 23 de janeiro de 2011

Nem sempre o meu silêncio...

Significa ausência.
Não me sinto no direito de estar
muito presente na sua vida.
É preciso que viva a sua liberdade.
Meu silêncio, é apenas
a minha maneira de gostar
de alguém, que por muitos motivos,
não pode ser meu.
Não estarei no seu futuro,
e nem você no meu.
Em breve serão apenas lembranças,
nos desejamos, nos possuímos,
assumimos as consequências,
mas ir além disso, é impossível.

Um passeio repentino

Quando à noite parece ter-se tomado a decisão definitiva de permanecer em casa, vestiu-se o roupão, depois do jantar ficou-se sentado à mesa iluminada, às voltas com aquele trabalho ou jogo ao término do qual habitualmente se vai dormir, quando lá fora há um tempo inamistoso que torna natural permanecer em casa, quando já se passou tanto tempo quieto à mesa que ir embora teria de provocar espanto geral, quando até as escadas já estão escuras e a porta do prédio fechada, e quando apesar disso tudo, num mal-estar repentino, fica-se em pé, troca-se o roupão, surge-se imediatamente vestido para ir à rua, se esclarece que é preciso sair, faz-se isso depois de breve despedida, acreditando-se ter deixado maior ou menor irritação conforme a rapidez com que se bate a porta do apartamento, quando se está de novo na rua com membros que respondem com uma mobilidade especial a essa liberdade inesperada que lhes foi concedida, quando se sente, através dessa decisão, concentrada em si mesmo toda a capacidade de decidir, quando se reconhece com um senso maior que o comum que se tem mais energia do que necessidade de produzir e suportar a mais rápida das mudanças, e quando assim se vai às pressas pelas longas ruas - então por essa noite está-se totalmente desligado da família, que desvia seu rumo para o inessencial enquanto, firme de alto a baixo, os contornos com as linhas carregadas, dando tapas na parte traseira das coxas, ascende-se à sua verdadeira estatura.

Tudo fica mais reforçado quando, a essa hora tardia da noite, se procura um amigo para ver como ele vai.

(tradução de Modesto Carone, no livro A Contemplação / O Foguista, de Franz Kafka - ed. Cia. das Letras)

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Eu

Primeiro você cai num poço. Mas não é ruim cair num poço assim de repente?No começo é. Mas você logo começa a curtir as pedras do poço. O limo do poço.A umidade do poço. A água do poço. A terra do poço. O cheiro do poço. O poçodo poço. Mas não é ruim a gente ir entrando nos poços dos poços sem fim? Agente não sente medo? A gente sente um pouco de medo mas não dói. A gentenão morre? A gente morre um pouco em cada poço. E não dói? Morrer não dói.Morrer é entrar noutra. E depois: no fundo do poço do poço do poço do poço você vai descobrir quê.

Caio Fernando Abreu

Coração Leviano

Trama em segredo teus planos
Parte sem dizer adeus
Nem lembra dos meus desenganos
Fere quem tudo perdeu
Ah, coração leviano
Não sabe o que fez do meu.
Este pobre navegante
Meu coração amante
Enfrentou a tempestade
No mar da paixão e da loucura
Fruto da minha aventura
Em busca da felicidade
Ah, coração teu engano
Foi esperar por um bem
De um coração leviano
Que nunca será de ninguém

Djavan

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Imagens são palavras que nos faltam

Difícil fotografar o silêncio.
Entretanto tentei. Eu conto:
Madrugada a minha aldeia estava morta.
Não se ouvia um barulho, ninguém passava entre as casas.
Eu estava saindo de uma festa.
Eram quase quatro da manhã.
Ia o Silêncio pela rua carregando um bêbado.
Preparei minha máquina.
O silêncio era um carregador?
Fotografei esse carregador.
Tive outras visões naquela madrugada.
Preparei minha máquina de novo.
Tinha um perfume de jasmim num beiral de um sobrado.
Fotografei o perfume.
Vi uma lesma pregada mais na existência do que na pedra.
Fotografei a existência dela.
Vi ainda azul-perdão no olho de um mendigo.
Fotografei o perdão.
Vi uma paisagem velha a desabar sobre uma casa.
Fotografei o sobre.
Foi difícil fotografar o sobre.

Manoel de Barros

Em suas chamas

Quando uma mulher se abre, o que há de mais solitário se alarga. Espantalhos de dor se mostram e se decompõem. Flocos de agonia se aproximam. Crescem perdas. Voam conchas.
Uma mulher que se abre é uma mulher mergulhada em anáguas e sendas. Saltando sobre a luz. Deram-lhe lanças e um falso espelho para enganar as feridas.
Quebrada, ela conduz corações ao túmulo. Esperando que uma nova morte traga-lhe nova grinalda e novo véu.
Em surdina, uma mulher que se abre deseja o esquecimento e a maternidade. Quer parir, dormir, trepar. Morte à memória!
– O mundo não corrompe quem habita os subterrâneos. – disse-lhe um livro com o sol no ventre.
O extravio de uma mulher que se abre é um deslumbre. Uma significação doce e mórbida. Possui a beleza e está carregado de hóstias e sepulturas.
Moças e rapazes, caindo em abismos, sustentam essa mulher aberta. Beijam-lhe o útero exposto.
Afogada em seus cabelos, ela se arqueia na esperança que o amor, quando novamente acontecer, não traga algemas.
Uma mulher que se abre é pedra, cratera, rio, relíquia.
Traz na língua o perdão em suas chamas.

Marize Castro

Carta

Tinha suspirado, tinha beijado o papel devotamente!
era a primeira vez que lhe escreviam aquelas sentimentalidades,
e o seu orgulho dilatava-se ao calor amoroso que saía delas,
como um corpo ressequido que se estira num banho tépido;
sentia um acréscimo de estima por si mesma,
e parecia que entrava em fim numa existência
superiormente interessante,
onde cada hora tinha o seu encanto diferente,
cada passo conduzia a um êxtase,
e a alma se cobria de um luxo radioso de sensações...

Eça de Queiroz

Ela faz cinema

Quando ela chora
Não sei se é dos olhos para fora
Não sei do que ri
Eu não sei se ela agora
Está fora de si
Ou se é o estilo de uma grande dama
Quando me encara e desata os cabelos
Não sei se ela está mesmo aqui
Quando se joga na minha cama
Ela faz cinema
Ela faz cinema
Ela é a tal
Sei que ela pode ser mil
Mas não existe outra igual
Quando ela mente
Não sei se ela deveras sente
O que mente para mim
Serei eu meramente
Mais um personagem efêmero
Da sua trama
Quando vestida de preto
Dá-me um beijo seco
Prevejo meu fim
E a cada vez que o perdão
Me clama
Ela faz cinema
Ela faz cinema
Ela é demais
Talvez nem me queira bem
Porém faz um bem que ninguém
Me faz
Eu não sei
Se ela sabe o que fez
Quando fez o meu peito
Cantar outra vez
Quando ela jura
Não sei por que Deus ela jura
Que tem coração
e quando o meu coração
Se inflama
Ela faz cinema
Ela faz cinema
Ela é assim
Nunca será de ninguém
Porém eu não sei viver sem
E fim.

Chico Buarque

As coisas que você possui acabam te possuindo

Eu vejo aqui as pessoas mais fortes e inteligentes.
Vejo todo esse potencial desperdiçado.
A propaganda põe a gente pra correr atrás de carros e roupas.
Trabalhar em empregos que odiamos para comprar merdas inúteis.
Somos uma geração sem peso na história.
Sem propósito ou lugar.
Nós não temos uma Guerra Mundial.
Nós não temos uma Grande Depressão.
Nossa Guerra é a espiritual.
Nossa Depressão, são nossas vidas.
Fomos criados através da tv para acreditar que um dia seriamos milionários, estrelas do cinema ou astros do rock.
Mas não somos.
Aos poucos tomamos consciência do fato.
E estamos muito, muito putos.

Você não é o seu emprego.
Nem quanto ganha ou quanto dinheiro tem no banco.
Nem o carro que dirige.
Nem o que tem dentro da sua carteira.
Nem a porra do uniforme que veste.
Você é a merda ambulante do Mundo que faz tudo pra chamar a atenção.

Nós não somos especiais.
Nós não somos uma beleza única.
Nós somos da mesma matéria orgânica podre, como todo mundo.

Tyler Durden - Clube da Luta

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Como base

Ler Caio Fernando Abreu é como tomar um grande tapa na cara com a parte mais macia da mão.