terça-feira, 28 de dezembro de 2010

intitulado/inacabado

Quero drenar todo esse ar quente que está afagado ao lado de meu coração, entre meus seios.
Meu íntimo já não passa de uma angustia trasfigurada, quero tanto chorar e condenar meus próximos à minha ausência. Preciso de mecanismos extraordinários, ou apenas uma porção de coragem desafiadora. Quanta infelicidade e insatisfação pode haver em um homem? Quero sublimar por entre os quentes asfaltos e por entre prédios cheios de ilusão, a procura do que mais me atormenta, e quanto tormento há e haverá por não encontrar-te carrasco. Me ensine, me ajude a sair, quero unir-me a você, preciso contrair-me sobre teu corpo para assim unir-mos os nossos mais sublimes e tormentadores sentimentos. Quero ser atingida bem em minhas têmporas por flexas pingando incoerencia e imoralidade, pois agora só o que é errado pode me fazer feliz.

Giulliany Feitosa em parceria com a fraqueza, a angustia e a frustração.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Correspondências

A natureza é um templo onde vivos pilares
Deixam sair às vezes palavras confusas.
Por florestas de símbolos, lá o homem cruza
Observado por olhos ali familiares.
Tal longos ecos longes onde lá se confundem
Dentro da tenebrosa e profunda unidade
Imensa como a noite e como a claridade
Os perfumes, as cores e os sons se transfundem.
Perfumes de frescor tal a carne de infantes,
Doces como o oboé, verdes igual ao prado.
_Mais outros, corrompidos, ricos, triunfantes.
Possuindo a expansão de um algo incabado
Tal como o âmbar, almiscar, benjoim e incenso
Que cantam o enlevar dos sentidos e o senso.

Charles Baudelaire

Como nossos pais

Não quero lhe falar
Meu grande amor
Das coisas que aprendi
Nos discos...
Quero lhe contar
Como eu vivi
E tudo o que
Aconteceu comigo
Viver é melhor que sonhar
E eu sei que o amor
É uma coisa boa
Mas também sei
Que qualquer canto
É menor do que a vida
De qualquer pessoa...
Por isso cuidado meu bem
Há perigo na esquina
Eles venceram e o sinal
Está fechado prá nós
Que somos jovens...
Para abraçar meu irmão
E beijar minha menina
Na rua
É que se fez o meu lábio
O seu braço
E a minha voz...
Você me pergunta
Pela minha paixão
Digo que estou encantado
Como uma nova invenção
Vou ficar nesta cidade
Não vou voltar pr'o sertão
Pois vejo vir vindo no vento
O cheiro da nova estação
E eu sinto tudo
Na ferida viva
Do meu coração...
Já faz tempo
E eu vi você na rua
Cabelo ao vento
Gente jovem reunida
Na parede da memória
Esta lembrança
É o quadro que dói mais...
Minha dor é perceber
Que apesar de termos
Feito tudo, tudo, tudo
Tudo o que fizemos
Ainda somos os mesmos
E vivemos
Ainda somos os mesmos
E vivemos
Como Os Nossos Pais...
Nossos ídolos
Ainda são os mesmos
E as aparências
As aparências
Não enganam não
Você diz que depois deles
Não apareceu mais ninguém
Você pode até dizer
Que eu estou por fora
Ou então
Que eu estou enganando...
Mas é você
Que ama o passado
E que não vê
É você
Que ama o passado
E que não vê
Que o novo sempre vem...
E hoje eu sei
Eu sei!
Que quem me deu a idéia
De uma nova consciência
E juventude
Está em casa
Guardado por Deus
Contando seus metais...
Minha dor é perceber
Que apesar de termos
Feito tudo, tudo, tudo
Tudo o que fizemos
Ainda somos
Os mesmos e vivemos
Ainda somos
Os mesmos e vivemos
Ainda somos
Os mesmos e vivemos
Como Os Nossos Pais...


Belchior

sábado, 25 de dezembro de 2010

Assombros

Às vezes, pequenos grandes terremotos
ocorrem do lado esquerdo do meu peito.
Fora, não se dão conta os desatentos.
Entre a aorta e a omoplata rolam
alquebrados sentimentos.
Entre as vértebras e as costelas
há vários esmagamentos.
Os mais íntimos
já me viram remexendo escombros.
Em mim há algo imóvel e soterrado
em permanente assombro.

Affonso Romano de Sant'Anna

Silêncio Amoroso

Preciso do teu silêncio
cúmplice sobre minhas falhas.
Não fale.
Um sopro, a menor vogal pode me desamparar.
E se eu abrir a boca minha alma vai rachar.
O silêncio, aprendo, pode construir. É um modo
denso/tenso - de coexistir.
Calar, às vezes, é fina forma de amar.

Affonso Romano de Sant'Anna

A menor mulher do mundo

"É que a própria coisa rara sentia o peito morno do que se pode chamar de Amor. Ela amava aquele explorador amarelo. Se soubesse falar e dissesse que o amava, ele inflaria de vaidade. Vaidade que diminuiria quando ela acrescentasse que também amava muito o anel do explorador e que amava muito a bota do explorador. E quando este desinchasse desapontado, Pequena Flor não compreenderia por quê. Pois, nem de longe, seu amor pelo explorador — pode-se mesmo dizer seu "profundo amor", porque, não tendo outros recursos, ela estava reduzida à profundeza — pois nem de longe seu profundo amor pelo explorador ficaria desvalorizado pelo fato de ela também amar sua bota."

Clarice Lispector - Laços de Família

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

A experiência da solidão

Aprender a amar a solidão não é algo fácil, tampouco agradável no começo, mas algo necessário. Se não sentir o sentimento de amor, mas ao menos sinta a convivência e a aceitação de um estado o qual todos passamos freqüentemente, mesmo quando rodeados por pessoas ou eventos.

Muitas pessoas fogem da solidão com tamanha repugnância que chegam a apagar a luz de suas almas quando não encontram saída a ela. A ânsia e o desespero por uma companhia são fatores banais na sociedade desde os antepassados. Mas por que as pessoas têm tanto medo de viverem ou estarem sozinhas?

Quando estamos sós somos bombardeados por pensamentos de inúmeras irrelevâncias, desde algo banal até umas questão de extrema importância, ou até mesmo por vagas opiniões perdidas em nossas mentes que nem mesmo nós mesmos as conhecíamos. Muitas destas questões nos invadem durante o período, forçando ou não, das abstinências. Questões cruciais e de autoconhecimento que ficam para sempre desconhecidas, seja em suas duvidas, seja em suas respostas que se tornam mais difíceis ainda quando não nos dedicamos ao seu questionamento interior.

Para fugir do (para muitos, inconsciente) questionamento do autoconhecimento, as pessoas buscam métodos de saída para este mau tão grande que se chama solidão. O tédio torna-se também um grande inimigo, a falta do que fazer, a ansiedade, a angústia de está entre “grades” criadas por qualquer fator que sejam são realmente apavorantes, principalmente àquelas pessoas que se tornam dependentes de terceiros.

A passividade com que a falta de relação unipessoal se dá é algo que precisa ser revisto para a formação da consciência de um bom entendedor. Aqueles a quem tudo é dado não tem noção da lei e dos limites; escravos de sua própria ânsia de satisfação imediata, eles não saberiam lidar com os contratempos da vida.

Quando dedicamos grande parte de nosso tempo ao convívio com outros (muitos dedicam quase seu tempo total, exceto pelas necessidades básicas de se manter só como a de dormir, tomar banho ou ir ao banheiro, e às vezes nem mesmo isso), acabamos por não conviver com nós mesmos. Você passa a conhecer o outro, e a história de outros, e a ter reações monótonas e irrelevantes, você começa a se tornar um cão correndo atrás do próprio rabo, não sai do lugar em relação à sua pessoa, (não à pessoa que está com os amigos, mas à pessoa que está com você, a sua consciência, a sua alma). Você conhece a sua alma? Você acha que seria capaz de viver realmente sozinho? Como pode alguém amar outra pessoa se esse alguém não se ama? Pois é claro que para amar alguém é necessário primeiro conhecer essa pessoa, mas muitos de nós pensamos primeiramente nos outros antes de pensarmos nas pessoas que somos, e esse questionamento do “quem eu sou” não se resume apenas a características do tipo: sou uma pessoa legal que adora viver a vida, sou bonito(a), tenho olhos castanhos e adoro comer chocolate. Não. Esse tipo de características ao serem colocadas em um patamar em relação ao que forma de verdade alguém são características efêmeras.

Concordo que seja difícil de si conhecer apenas entre quatro paredes, mas creio que o ser humano deve dedicar um tempo a si, um tempo maior que o tempo que ele usa casualmente para coisas habituais (como já citei). É necessária a meditação, o autoconhecimento, a interdependência consigo, pois que no fundo todos somos sós, mas isso ninguém vê, ninguém assume (talvez por ingenuidade, talvez por não querer, preferindo a comodidade das “companhias” quase sempre descartáveis). Todas as pessoas passam, os lugares, os momentos, e a única coisa que fica conosco desde o nascimento até a nossa morte somos nós mesmos, e conviver com um desconhecido durante toda a sua vida é algo complicado. Encarar os medos interiores, traumas, desejos secretos e indecentes, anormalidades (à vista dos outros), isso sim é uma dose grande. E quem agüenta? Quem se sujeita? Poucos. A não ser quando se trata da vida dos outros, aí sim encontramos bons juízes.

A ausência da companhia para os escravos de sua própria ânsia é algo frustrante, o que não faz disso uma coisa ruim. As frustrações são um requisito do pensamento e a solidão é uma frustração. Se não encaramos às nossas frustrações, logo não temos experiência para a formação um pensamento consciente, de um ser humano livre e consciente.


Giulliany Feitosa

domingo, 12 de dezembro de 2010

Navegar é preciso

Navegadores antigos tinham uma frase gloriosa:
"Navegar é preciso; viver não é preciso".

Quero para mim o espírito [d]esta frase,
transformada a forma para a casar como eu sou:

Viver não é necessário; o que é necessário é criar.
Não conto gozar a minha vida; nem em gozá-la penso.
Só quero torná-la grande,
ainda que para isso tenha de ser o meu corpo
e a (minha alma) a lenha desse fogo.

Só quero torná-la de toda a humanidade;
ainda que para isso tenha de a perder como minha.
Cada vez mais assim penso.

Cada vez mais ponho da essência anímica do meu sangue
o propósito impessoal de engrandecer a pátria e contribuir
para a evolução da humanidade.

É a forma que em mim tomou o misticismo da nossa Raça.

Fernando Pessoa

A palavra mágica

É a senha da vida
a senha do mundo.
Vou procurá-la.

Vou procurá-la a vida inteira
no mundo todo.
Se tarda o encontro, se não a encontro,
não desanimo,
procuro sempre.

Procuro sempre, e minha procura
ficará sendo
minha palavra.

Carlos Drummond Andrade

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

À Noite

Profundo abismo da noite
Eu afundo na noite
Permanecendo sozinho embaixo do céu
Eu sinto o frio do gelo
No meu rosto
Eu observo as horas passarem

As horas passam por...

Você dorme
Dorme em uma cama segura
Enrolado e protegido
Protegeu a visão
Sob um teto seguro
Um abismo em sua casa
Inconsciente das mudanças da noite

À noite
Eu ouço a escuridão respirar
Eu sinto o desespero quieto
Ouço o silêncio
À noite
Alguém tem que estar lá
Alguém tem que estar lá

Alguém deve estar lá


The Cure - At Night (traduzida)

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Por qualquer vergonha ridícula da forma de prazer...

Minhas mãos
abrem a cortina do seu ser
cobrindo-o com uma nudez maior
descobrindo os corpos do seu corpo
Minhas mãos inventam outro corpo
Para o seu corpo

(Octavio Paz, Toque)

domingo, 21 de novembro de 2010

assim é.

[...]Pouco me interessam as estrelas, o tempo que elas duram ou a poeira do universo. Estou mais interessado em mim, no agora, na luz que entra pela janela de minha casa. [...]

Giulliany Feitosa

A estrela - Ferreira Gullar

Gatinho, meu amigo,
fazes ideia do que seja uma estrela?

Dizem que todo este nosso imenso planeta
coberto de oceanos e montanhas
é menos que um grão de poeira
se comparado a uma delas


Estrelas são explosões nucleares em cadeia
numa sucessão que dura bilhões de anos

O mesmo que a eternidade

Não obstante, Gatinho, confesso
que pouco me importa
quanto dura uma estrela

Importa-me quanto duras tu,
querido amigo,
e esses teus olhos azul-safira
com que me fitas

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Meu eu em Caio Fernando Abreu

"porque já não temos mais idade para, dramaticamente, usarmos palavras grandiloqüentes como "sempre" ou "nunca". Ninguém sabe como, mas aos poucos fomos aprendendo sobre a continuidade da vida, das pessoas e das coisas. Já não tentamos o suicidio nem cometemos gestos tresloucados. Alguns, sim - nós, não. Contidamente, continuamos. E substituimos expressões fatais como "não resistirei" por outras mais mansas, como "sei que vai passar". Esse o nosso jeito de continuar, o mais eficiente e também o mais cômodo, porque não implica em decisões, apenas em paciência."

Caio F.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Control

It's not the way I go
It's not the way I go
No one here hears me
I'm sick of people knowing me
Life's confusing me
There's so much I don't see
Something's controlling me
It's no way to live
I haven't got a thing to give
And as those signs trad off
I'm a line from loud to soft
For what I have to say
I wanted to build a stage
I wanted to feel this way
All these things are real
I don't know my own field
You will prove me wrong
I don't know one
I see now what I've got
It reveals just what it's not
Someday I'll take it away
There's nothing for me anyway
Love don't choose me
Wide don't see a thing
What I'm saying is now
I don't know what it's about
I wander through the dawn
So much goes on
Who will make me run
I admit I might be wrong
These letters shelter me now
I wonder how


John Frusciante

domingo, 2 de maio de 2010

Jardins de Mágoas

Tulipas banguelas acenam amputadas

nos jardins de mágoas trava o artista

a sua árdua batalha expressiva em busca da beleza

saúdo a leveza da vida abrigo obscuridades

demências tangidas demências vividas demências desejadas

calor estéreo transpira o corpo nordestino

o sol que incomoda transborda o céu de luminosidade expressiva

melancolia me domina me atravessa noite a dentro

insónias pesadelos e palpitações prenunciam a presença do diabo

que me tenta ao suicídio

todos os homens estão fadados a morrer

e como diria Becket todos temos que nos conformar pois o inferno nos aguarda

além da estrada no além túmulo post mortem ha! ha! ha!!!

nenhuma transcendência me amedronta ou me provoca

tanto quanto a vida tal qual ela é

the dark side of the moon

a noite persiste com os seus demônios alados

feito pernilongos a perturbar-me o sono

a noite desperta o artista sonâmbulo de inquietações

delirium tremens bombardeiam o tédio

venenos de eletricidade açoitam meu corpo hedonista

e eu falava em tulipas

flores decepadas carnívoras e muchas adornam os jardins dos morros narcóticos

a guerra civil banha em vermelho o sol da tarde inútil de domingo

que cheira a tédio e a naftalina

escuto o rap requiém das favelas chapadas de armagedom

ao som de violinos distorcidos e toscos

adormeço no caos silencioso do inferno kafkiano que habita em mim.

POR LEIDIVAN MALDITO



ofereço esse poema a todos os meus domingos melancólicos, e a vida tal qual ela é.

sexta-feira, 26 de março de 2010

Convivas de boa memória

"Nada se emenda bem nos livros confusos, mas tudo se pode manter nos livros omissos. Eu, quando leio algum desta outra casta, não me aflijo nunca. O que faço em chegando ao fim, é cerrar o olhos e evocar todas as coisas que não achei nele. Quantas idéias finas me acodem então! Que de reflexões profundas! Os rios, as montanhas, as igrejas que não vi nas folhas lidas, todos me aparecem agora com as suas águas, as suas árvores, os seus altares, e os generais sacam das espadas que tinham ficado na bainha, e os clarins soltam as notas que dormiam no metal, e tudo marcha com uma alma imprevista.
É que tudo se acha fora de um livro falho, leitor amigo. Assim preencho as lacunas alheias; assim podes também preencher as minhas".

Machado de Assis, Dom Casmurro

sexta-feira, 12 de março de 2010

Morte do Leiteiro

A Cyro Novaes

Há pouco leite no país,
é preciso entregá-lo cedo.
Há muita sede no país,
é preciso entregá-lo cedo.
Há no país uma legenda,
que ladrão se mata com tiro.
Então o moço que é leiteiro
de madrugada com sua lata
sai correndo e distribuindo
leite bom para gente ruim.
Sua lata, suas garrafas
e seus sapatos de borracha
vão dizendo aos homens no sono
que alguém acordou cedinho
e veio do último subúrbio
trazer o leite mais frio
e mais alvo da melhor vaca
para todos criarem força
na luta brava da cidade.

Na mão a garrafa branca
não tem tempo de dizer
as coisas que lhe atribuo
nem o moço leiteiro ignaro,
morados na Rua Namur,
empregado no entreposto,
com 21 anos de idade,
sabe lá o que seja impulso
de humana compreensão.
E já que tem pressa, o corpo
vai deixando à beira das casas
uma apenas mercadoria.

E como a porta dos fundos
também escondesse gente
que aspira ao pouco de leite
disponível em nosso tempo,
avancemos por esse beco,
peguemos o corredor,
depositemos o litro...
Sem fazer barulho, é claro,
que barulho nada resolve.

Meu leiteiro tão sutil
de passo maneiro e leve,
antes desliza que marcha.
É certo que algum rumor
sempre se faz: passo errado,
vaso de flor no caminho,
cão latindo por princípio,
ou um gato quizilento.
E há sempre um senhor que acorda,
resmunga e torna a dormir.

Mas este acordou em pânico
(ladrões infestam o bairro),
não quis saber de mais nada.
O revólver da gaveta
saltou para sua mão.
Ladrão? se pega com tiro.
Os tiros na madrugada
liquidaram meu leiteiro.
Se era noivo, se era virgem,
se era alegre, se era bom,
não sei,
é tarde para saber.

Mas o homem perdeu o sono
de todo, e foge pra rua.
Meu Deus, matei um inocente.
Bala que mata gatuno
também serve pra furtar
a vida de nosso irmão.
Quem quiser que chame médico,
polícia não bota a mão
neste filho de meu pai.
Está salva a propriedade.
A noite geral prossegue,
a manhã custa a chegar,
mas o leiteiro
estatelado, ao relento,
perdeu a pressa que tinha.

Da garrafa estilhaçada,
no ladrilho já sereno
escorre uma coisa espessa
que é leite, sangue... não sei.
Por entre objetos confusos,
mal redimidos da noite,
duas cores se procuram,
suavemente se tocam,
amorosamente se enlaçam,
formando um terceiro tom
a que chamamos aurora.


Carlos Drummond de Andrade

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Mulher proletária

Mulher proletária — única fábrica
que o operário tem, (fabrica filhos)
tu
na tua superprodução de máquina humana
forneces anjos para o Senhor Jesus,
forneces braços para o senhor burguês.

Mulher proletária,
o operário, teu proprietário
há de ver, há de ver:
a tua produção,
a tua superprodução,
ao contrário das máquinas burguesas
salvar o teu proprietário.

Jorge de Lima

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Geralmente quando escrevo, depois que torno a ler meus textos sinto-me uma tola. Evitarei tais leituras, caso contrario me decidirei por não mais publica-los.

Ao silêncio

Não posso mais ver a filosofia de teus olhos
já que você não mais os direcionam para mim.
Sinto-me culpada, sim.
Sei de tudo que sinicamente falei
Como palpitações sem valor nenhum
já que cada uma de minhas palavras não continha o menor sentimento
Mas como tolo foi teu coração
Que em um intimo e extremo ato de juízo de valor precipitou-se a me julgar
Sem nem ao menos me pedir uma ultima palavra verdadeira se quer!
Não preciso de tantas explicações que nunca serão pronunciadas quando tenho teu silencio
Oh, teu silencio!
Como me perturbas!
Juro que preferia a morte, ou talvez o triste desencontro de nunca termos trocado os nossos olhares
E mais que isso, as nossas palavras!
Palavras essas tão preciosas, tão verdadeiras, tão penetrantes
As tuas palavras que tanto me acalentaram e que tanto reviraram minha mente
Escuto-as agora unicamente no vazio de minhas lembranças
Pela pura falta de opção que teu silencio me empregou.

Giulliany F.